O perigo da ciência sem freios: prudência, autoconhecimento e a tragédia de Faetonte
- Dr. Eduardo Fidelis
- 14 de mar.
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A imprudência na ciência e na clínica médica reflete a soberba humana: sem autoconhecimento, o poder se torna destrutivo, levando ao caos e à ruína.
A história de Faetonte é um dos mitos mais eloquentes sobre a imprudência humana. O filho do deus Sol, ao exigir para si o comando do carro flamejante do pai, termina precipitado na ruína, incapaz de conter a fúria dos cavalos divinos. Sua tragédia é a imagem da falta de autoconhecimento, da arrogância que cega e leva o homem a ultrapassar os limites que a natureza e a prudência lhe impõem.
A imprudência não se manifesta apenas nos jovens impetuosos, mas também nos cientistas e clínicos que, confiantes em seu saber, desconsideram a ordem natural e os limites impostos pelo real. A medicina moderna, ao conquistar sucessos inegáveis, corre o risco de tornar-se Faetonte: imbuída de sua própria potência, perde o temor e a humildade diante daquilo que ultrapassa sua capacidade de controle. O conhecimento, quando desprovido de sabedoria, transforma-se em um fogo destrutivo.
A ciência sem freios: entre o progresso e a imprudência
Como ensina Garrigou-Lagrange, a relação entre corpo e alma, após a Queda, tornou-se desordenada: o corpo deveria ser guiado pela alma, mas frequentemente sucede o oposto, como um cavalo sem freios que arrasta o cavaleiro. O mesmo ocorre com a ciência e a prática clínica: sem a orientação da prudência e da moral, podem ser conduzidas não pela verdade, mas pelos impulsos descontrolados de um desejo desenfreado por inovação e sucesso.
A história da medicina revela avanços gloriosos, mas também tragédias causadas pela falta de temperança. A eugenia, os experimentos antiéticos e a medicalização desmedida são exemplos de como o entusiasmo científico pode degenerar em soberba e, por fim, destruição. A ausência de autoconhecimento, de consciência das próprias limitações, conduz ao abuso do poder científico, transformando a prática médica em um perigo potencial para a própria humanidade.
O autoconhecimento como fundamento do senso moral
"Conhece-te a ti mesmo" (gnōthi seauton) era a inscrição no templo de Delfos. Essa exortação filosófica não se limita a um conselho prático, mas trata-se de um imperativo moral e metafísico. O homem que não se conhece é um perigo para si e para os outros. O clínico que desconhece seus próprios limites, que não teme o erro e não pondera as consequências de suas decisões, caminha para a soberba.
Neste sentido, o temor de Deus — compreendido não como um medo servil, mas como reverência diante da ordem natural e do mistério da existência — equivale, em certa medida, ao autoconhecimento. A ciência que reconhece seus limites, que teme a própria ignorância e busca sempre a sabedoria antes do poder, é aquela que melhor serve ao homem. O temor de Deus é, pois, o princípio da sabedoria, e não pode haver verdadeira prática clínica sem este fundamento.
O mito de Faetonte como lição para a medicina
A história de Faetonte ressoa não apenas no campo da filosofia moral, mas também na prática médica e científica. Ele é o exemplo de todo profissional que, acreditando-se invulnerável e infalível, perde o controle e leva à destruição. O carro do Sol representa o poder do conhecimento, que pode iluminar, mas também incendiar e devastar.
O médico e o cientista devem, portanto, cultivar a temperança, a prudência e o senso de limite. Somente quem conhece a si mesmo, quem compreende a dimensão da própria finitude e se submete à ordem maior da natureza, pode conduzir com segurança o carro do conhecimento. A ciência, sem o freio da sabedoria, repete a tragédia de Faetonte, lançando-se em um abismo de imprudência e destruição.
A ciência moralmente ordenada
O conhecimento, se deseja ser verdadeiramente benéfico, deve estar subordinado à sabedoria. A prática clínica, para ser eficaz e justa, deve partir do autoconhecimento e do temor diante daquilo que ultrapassa o controle humano. O médico e o cientista que se conhecem, que temem a própria soberba e que buscam a verdade acima do prestígio e do poder, são aqueles que verdadeiramente servem à humanidade.
O caminho da ciência deve ser guiado não pela soberba, mas pela humildade; não pelo entusiasmo cego, mas pela prudência reflexiva. Que os cientistas e clínicos aprendam com Faetonte: sem autoconhecimento, o poder não eleva — precipita na ruína.
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