Atividade Física é Realmente Superior aos Medicamentos no Tratamento da Depressão?
- Dr. Eduardo Fidelis
- 3 de fev.
- 4 min de leitura
Atividade física pode ser mais eficaz que medicamentos na saúde mental? Descubra as limitações das pesquisas e a verdade por trás dos dados.
“A atividade física é superior aos medicamentos no tratamento da depressão em 50%.” Essa frase viralizou nas redes sociais, sendo compartilhada por profissionais e leigos como uma verdade científica incontestável. Contudo, ao examinar a pesquisa que supostamente embasa tal afirmação, encontramos uma narrativa bem menos conclusiva. Vamos explorar por que é importante questionar essa generalização e como ela pode ser um exemplo do mau uso da ciência.
A Origem da Afirmação
A declaração citada foi atribuída a um estudo conduzido por Ben Singh, publicado na British Journal of Sports Medicine em fevereiro de 2023. Este trabalho realizou uma revisão guarda-chuva de revisões sistemáticas e meta-análises para avaliar os efeitos da atividade física nos sintomas de depressão, ansiedade e estresse psicológico. Embora o estudo tenha apresentado evidências promissoras sobre os benefícios da atividade física, é crucial destacar que os próprios autores não fizeram tal comparação direta com medicamentos.
Uma revisão guarda-chuva, como a realizada por Singh, tem como objetivo agregar resultados de diferentes estudos para oferecer uma visão ampla sobre um tema. No entanto, sua eficácia depende diretamente da qualidade das revisões incluídas. Quando as fontes são de qualidade duvidosa, o resultado final também pode ser comprometido. Essa é uma das limitações mais evidentes do estudo em questão, como exploraremos a seguir.
Por que a Comparação é Imprópria
O primeiro ponto de atenção é metodológico. O estudo excluiu deliberadamente revisões que comparassem diretamente a atividade física com outras intervenções, como medicamentos ou psicoterapia. Os critérios de inclusão foram claros:
“Foram elegíveis revisões que comparassem a atividade física com grupos de controle passivo (cuidados habituais, lista de espera ou nenhuma intervenção) ou intervenções de menor intensidade.”
Portanto, as comparações com farmacoterapia ou psicoterapia foram, de antemão, excluídas. Logo, a afirmação de que a atividade física é 50% mais eficaz que medicamentos carece de fundamentação dentro do escopo do estudo. Isso não apenas limita as conclusões que podemos tirar, mas também levanta questões sobre como essas informações foram interpretadas e divulgadas.
De Onde Surgiu o “50%”?
Uma possível origem dessa distorção pode estar em uma frase específica do artigo:
“As reduções nos sintomas de depressão (−0,43) e ansiedade (−0,42) são comparáveis ou ligeiramente maiores do que as observadas para psicoterapia e farmacoterapia (variação de −0,22 a −0,37).”
Ao tomar o valor médio da farmacoterapia (−0,29) e compará-lo com o efeito da atividade física (−0,43), pode-se chegar a ao resultado aproximado de 50% de superioridade. Entretanto, essa comparação não é feita entre populações semelhantes ou em condições controladas. Assim, ela é puramente especulativa, não podendo ser interpretada como evidência direta.
Outro ponto relevante é que os valores usados para a comparação não provêm do mesmo contexto experimental. A farmacoterapia foi analisada em estudos diferentes daqueles que avaliaram a atividade física, o que torna a comparação ainda menos confiável. Este é um erro metodológico que pode gerar conclusões enganadoras e impactar negativamente as decisões clínicas baseadas nesses dados.
Limitações do Estudo
Além da falta de comparações diretas, o estudo apresenta limitações que comprometem a confiabilidade dos resultados:
Qualidade Crítica Baixa das Revisões: Das 97 revisões incluídas, 87 foram classificadas como de qualidade criticamente baixa ou baixa. Em ciência, a expressão “garbage in, garbage out” sintetiza bem o problema: se a qualidade das evidências originais é duvidosa, os resultados também serão. Essa proporção alarmante de revisões de baixa qualidade questiona até que ponto as conclusões gerais podem ser consideradas confiáveis.
Dependência de Autorrelatos: A maioria dos estudos avaliados utilizou autorrelatos para medir sintomas de depressão e ansiedade. Estudos baseados em autorrelatos frequentemente sofrem de viés de confirmação, onde os participantes podem exagerar ou subestimar os efeitos, dependendo de suas crenças ou expectativas.
Falta de Controle de Variáveis: Muitas revisões incluídas no estudo não detalharam se houve ajustes para fatores de confusão, como a gravidade inicial dos sintomas, condições clínicas associadas ou mesmo variações no tipo de atividade física utilizada. Isso limita nossa capacidade de generalizar os resultados para populações mais amplas.
O que Podemos Concluir?
O que se pode concluir é que a atividade física deve ser encorajada como parte do tratamento de transtornos mentais, pois os benefícios observados são consistentes em diversas populações e modalidades. Entretanto, as afirmações de superioridade em relação a outros tratamentos são infundadas e contraproducentes.
Esta discussão também destaca a importância de uma comunicação científica precisa e transparente. A propagação de informações distorcidas não apenas compromete a confiança do público na ciência, mas também pode levar a expectativas irreais em relação aos tratamentos. Além disso, quando profissionais da saúde baseiam suas práticas em conclusões precipitadas, isso pode resultar em abordagens terapêuticas inadequadas.
Portanto, precisamos reconhecer os limites dos estudos e buscar sempre fontes confiáveis para fundamentar nossas decisões. A ciência não deve ser usada para corroborar crenças preexistentes, mas sim para guiar nossas ações com base em evidências sólidas.
Quer saber como construir uma vida mais saudável com base em ciência de verdade? Conheça o DietEvolution, uma plataforma que alia educação alimentar a evidências científicas. Acesse e transforme sua saúde!
Comments